segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Da hora a vida - A saga do Naridrin



"As drogas acionam o sistema de recompensa do cérebro, uma área encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo."

A frase acima, de autoria do médico Drauzio Varella, é perfeita.

Normalmente a dependência química é associada apenas às substâncias ilícitas. Porém sempre me lembro de uma história do Batman publicada aqui no Brasil em 1995, mais precisamente na revista Liga da Justiça & Batman nº 07. Nessa história, o rapaz caçado pelo Homem-Morcego - um justiceiro que não hesita em combater narcotraficantes com medidas extremas - diz a seguinte frase:

"Tudo aquilo que alivia a dor causa dependência".

O que estou tentando ilustrar é a ideia de que todo mundo é viciado em algo. No meu caso, sou dependente químico de uma solução de Cloridrato de Nafazolina + Maleato de Mepiramina + Dexpantenol, vendida em pequenos frascos de 30 ml chamada de Naridrin. Onde quer que eu esteja, sempre estou portando um desses frascos, e não me sinto seguro sem um.

Pois bem... Era uma terça feira em que eu cheguei em casa por volta das 2 da manhã e notei que havia perdido meu frasco de Naridrin. Puta que pariu! Eu estava sem carro, mas não podia esperar até o dia seguinte para comprar outro frasco. Estava fora de questão passar a noite sem meu santo remédio.

Não havia mais nada a fazer. A solução era simples: procurar alguma farmácia aberta.

Quando estava a alguns quarteirões da minha casa, percebi o perigo que estava correndo... Com minha touca e minha jaqueta do Corinthians, se a Polícia me visse na rua aquela hora da madrugada, poderia me encher de bala sem que eu tivesse direito a argumentação. Mas achei melhor ignorar o risco, pois quanto mais eu pensasse, mais demoraria a resolver meu problema, e eu teria que acordar dali a poucas horas para trabalhar.

Eu já tinha uma farmácia em mente. Eu moro a cerca de 15 minutos a pé do centro de Mauá, e costumava haver uma Drogaria São Paulo - que normalmente é 24 horas - próxima à estação de trem.
Infelizmente, aquela porra de farmácia estava fechada. Como assim? Já havia comprado remédios ali por volta das 4 da manhã. Bom, eu me lamentei enquanto seguia adiante, já pensando em várias farmácias que poderiam estar abertas. Mas a cada farmácia que eu via de portas fechadas, mais minha angústia aumentava, e com ela o cansaço por ter que respirar pela boca.

Como sou um cara de muita sorte, a única farmácia aberta era justamente a mais distante das que eu pensei. Como quem diz "Shut up and take my money", pedi minha droga ao atendente. Quase tive um piripaque quando o puto me disse:

_Ihhh, acho que acabou. Acho que só vou ter o Rinosoro! Vou verificar, só um instante.

Rinosoro? Como assim? Rinosoro eu tinha em casa, e aquilo é água pura, não funciona comigo. Por sorte, ele havia se enganado, e voltou com aquela caixinha azul, branca, amarela e vermelha. Naquele momento eu esvaziaria minha conta bancária em troca daquela substância mágica. Mas as cédulas amassadas em meu bolso bastaram.

Antes de seguir meu caminho de volta para casa, deitei-me na calçada, pinguei 2 gotas em cada narina e esperei 2 minutos com a cabeça inclinada pra trás para que a droga fizesse efeito. Naridrin santo curou dores, seduziu com seus sabores. Ó, substância milagrosa, leve embora todas as impurezas de minhas narinas e traga de volta ao meu organismo Oceano.

Pronto! Agora era só voltar para casa, porém com muito mais calma.

Depois de atravessar um viaduto, dobrando uma esquina veio um sujeito em minha direção e me falou:
_Salve, Coríntia! Pode me arrumar um cigarro?
_Não tenho, parei de fumar, amigão.
_Porra... Firmeza, boa noite aí.
_Boa noite.

Mesmo em meus dias de fumante, poucas vezes lamentei tanto estar sem cigarros. Porque o cara estava na situação na qual eu me encontrava há pouco mais de uma hora. Só um viciado querendo aliviar a tensão. Cada qual com sua droga.

Mas chegando em casa e finalmente deitando em minha cama, com minhas narinas devidamente desobstruídas, deixei de me preocupar com o cansaço. Com o dinheiro contado que eu não devia ter usado pra comprar remédios. E ainda menos com o fumante. Naquela hora, eu era mais eu!

A vida é dura! E vai, Corinthians!

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Por Guilherme Fernandes - Corintiano, maloqueiro, sofredor e hipocondríaco

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