terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Túmulo dos Vaga-lumes - Resenha.


  Todo filme que trabalha Segunda Guerra Mundial têm um viés por onde seguir. Seja militar, cultural ou social. Na maioria dos longas as batalhas dos soldados aliados contra o Eixo são umas das principais fontes especulativas. São batalhas épicas? É um soldado contra um judeu? É um judeu contra soldados? Mas são soldados e soldados e soldados. É fundamental, na maioria dos casos, trabalhar o olhar militar. Porém, pra toda regra, há uma exceção! E O Túmulo dos Vagalumes, produção de 1988 dos Studios Ghibli (mais conhecidos pelos longas A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Totoro), se encarrega muito bem de lidar de uma forma muito menos estereotipada da sociedade japonesa no ano final da Grande Guerra.

  Claro que já há uma vantagem do estúdio por ser de um país oriental, onde a cultura é absurdamente diferente da nossa herança européia ocidental. Porém, a vantagem não tira o crédito de Isao Takahara, um dos fundadores do Ghibli, ao lado de Hayao Miyazaki, e diretor de O Túmulo dos Vagalumes. Takahara soube levar, não sei se com fidelidade (pois não li o livro), mas com grande sensibilidade a narrativa do romance semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka.


  É um dos mais belos filmes e de maior significado sobre o evento. É puro e simples em vários sentidos diferentes. O viés escolhido foi maravilhoso. Partir do entendimento de um público de classe média de um centro urbano japonês, e ver como a guerra afetou intimamente qualquer escala social. Mas que, percebe-se pelo final, os mais abastados sobreviveram com os abrigos anti-bombas; ou conseguiram estocar alimentos importados ou considerados de luxo.


  Para além disso, entender que o significado de cada evento só é efetivo graças ao fato dos protagonistas, Seita e Setsuko, estarem perdidos de seus pais. Filhos de um militar da marinha japonesa, a família vivia em condições ótimas e possuíam bens que não eram comuns a maior parte da população. Balinhas "Drops", Quimonos de bons tecidos, ameixas em conserva, etc. Alias, moedas de troca que favoreceram aos irmãos abrigo com uma tia, até o ponto dela se encher com a intromissão de ambos em sua casa.


  Seita, um adolescente de no máximo 17 anos, se viu obrigado a cuidar de sua irmã, Setsuko de aproximadamente 6 anos, depois de se perderem dos seus pais após um ataque na cidade onde viviam. Fome, doença e desgraças afins devastaram a vida das duas crianças, que, sem apoio nenhum, tentavam sobreviver em meio ao caos.


SPOILER.


  Porque, apesar da boa vontade, foi a inocência e orgulho de Seita que arruinaram os dois. Banhado no famoso orgulho japonês, fruto de milênios culturais, onde qualquer afrouxo ou pedinte seria vergonhoso, amoral e humilhante. Entende-se isso pontualmente no final, quando ele descobre a rendição "incondicional" do país, e o naufrágio de toda a frota da marinha, inclusive do navio de seu pai. 

  Ele simplesmente praticou, de forma gradativa, o haraquiri. Entretanto seu sofrimento foi enorme, sua responsabilidade tamanha, e seu fim angustiante e cruel. Não poderíamos colocar toda essa culpa sob seus ombros. A criação dele o impediria de voltar a casa da tia. No fim das contas a morte deles está sobre o ombro dos próprios pais e da sociedade e cultura que o moldaram assim.
  
  Cultura que é funcional para algumas épocas, mas foi, nesse caso, suicida para tempos de crise. Todo país tem seus altos e baixos, seus erros claros com a sua própria humanidade e seu povo. Países orientais sofreram muito com a influência assassina de potências europeias, e o Japão foi um dos poucos que conseguiram se posicionar de igual com os maiores Estados do século XX. 

  Mas pra isso, a rigidez e disciplina a qual o povo está inserido, e é obrigado a se adequar, foi o preço pago para que o país do sol ganhasse um lugar de destaque na economia e na cultura mundial. Mas olhe onde estamos... Nossa alegria de vida faz o Brasil, as vezes, esquecer quem são os opressores e quem realmente é o dono do poder; coisa que o oriental possui claramente em sua educação... O Povo.

Por Caio Terciotti - Conhecendo Studios Ghibli graças a dica de Adriana Neves Amaral. Valeu, Drih!

2 comentários:

  1. Maravilhoso texto, é legal ler a resenha de um filme desse feita por um historiador....
    Filme que mais me fez chorar na vida também me fez sorrir.
    Seja muito bem vindo aos SG Caio, espero que você assista aos outros, te confesso que vale muito a pena ^.^
    Obs* Agora vá de A Viagem de Chihiro seguido de O Castelo Animado hahahahah \o

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    1. Obrigado, Adriana. Pela dica e pelo elogio!! Assistirei assim que possível!!!!!
      Continue nos lendo e ouvindo. Abraço!

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