terça-feira, 5 de agosto de 2014

Mamãe, tô forte.

"Olá, meu nome é Alfredo. Mas eu não gostava muito do meu nome, e preferia ser chamado de 'Coxa'. Eu não faço ideia de como esse apelido nasceu, mas como foram meus amigos, camaradas de infância que me batizaram, eu preferi levar pra frente. Vocês entendem, dentro do grupo nós precisamos nos encaixar. Pra que estressar por causa de um apelido?

"Eu era um cara tímido, que não conseguia falar com as meninas, ou alguém que elas achassem atraente. Eu me revoltava com isso. Meu pai tem dinheiro, e dava as melhores festas pro pessoal da escola, e apesar de todos quererem ser meus amigos, eu não achava que alguma garota pudesse querer algo mais, e elas não queriam mesmo. Me faltava algo. Algo que pudesse dizer que era meu. Quando tive essa súbita realização, decidi encher meu pai até que ele me desse um carro. E pra não dizerem que era tudo presente do papai, decidi pagar pelo som. 


"Como não tinha emprego, o jeito foi arranjar um trabalhinho simples, e economizar na mesada. Eu não iria trabalhar em mercado, call center ou qualquer coisa Zé Povinho assim. Um amigo meu tinha uma academia, e sugeriu que eu cuidasse da recepção. Logo pensei: 'Várias gatinhas aparecendo naquelas roupas coladas, e eu com o carro parado pro lado de fora. No fim do expediente só botar pra dentro'. Mas logo reparei que com o cara da recepção elas não queriam nada, aliás, nada com esse recepcionista magrelo, baixo e com espinhas que vos fala. Não bastava ter um carro, eu precisava de um corpo sarado.

"Mas com meu porte físico eu precisava consumir uma quantidade estratosférica de suplementos, e logo comecei a malhar, ter folego, pique, e vontade de fazer as coisas, além de uma dor de barriga e diarreia constante. Portanto, minha vida se resumia na academia (trabalho e lazer), no meu carro e nas baladas. Eletrônica, funk, pagode, micareta... Não tinha preconceito com estilo musical, desde que o estilo me proporcionasse o maior numero de mulheres. 'Mulheres', isso é mentira. Nunca usaria esse termo na época. Era 'mina' ou 'xoxota'. Ah sim, isso simplificava. Pra que falar o nome da 'coisa' toda, se eu podia resumir ao que me interessava nela.

"Aliás, todo meu jeito de falar agora é diferente. Não só exclui as palavras de baixo calão, como tenho me controlado pra diminuir a quantidade de abreviações ou gírias. Mas voltando...

"Minha vida era essa, dedicação 100% às coisas mais inúteis que vocês podem imaginar. E numa sexta a noite, eu tava indo pra uma habitual balada, me preparando pra ser um dos centros das atenções. Meu carro estava lavado e encerado, o som batia demais! Ele tava rebaixado no 'talo'. Eu tava com minha Baby Look padrão 'mamãe  sou forte e tomo esteroides' (e é claro que eu tomava), meu cabelo era idêntico ao do Cristiano Ronaldo... Resumindo... Eu tava lindo.

"Eu mexi com todas as mulheres, peguei várias... Fui recriminado por uma feminista de merda que tava fora d'água lá, e já mandei ela pro inferno procurar rola. Porque todo mundo nesse meio pensa isso. Feminista é hipócrita e mal comida, assim como lésbicas. Se bem que nós acreditávamos que eram a mesma coisa. Os gays são comidos em excesso, e por isso devem ser dizimados. Na minha cabecinha (a de cima) homossexuais merecem respeito, desde que não ficassem perto de mim e da minha galera. Um bando de trogloditas mal encarados. Se não, dávamos porrada mesmo! Hoje acredito que esse pessoal deve ter a chance de ser curado.

"Mas foi nessa festa que fui obrigado a rever tudo que acreditava e achava certo. Eu era descontrolado e beber muito fazia parte da filosofia que eu estava seguindo: Baladas, carros, mulheres, curtição e farra. Bebia tudo que aparecia na minha frente, copos passados de um pro outro. Não tinha seleção, não tinham doses individuais... Eu apaguei...

"Acordei muitas horas depois me lembrando de pouca coisa. Estava nu num terreno baldio, com a roupa cheia de barro ao meu lado, com mais um pessoal na mesma situação que eu. Consegui acordá-los, e fomos andando até algum lugar pra pedir socorro apesar da incrível dor no reto. Hoje eu sei. Eu era um cego. E agora encontrei a luz do Senhor."

Por Caio Terciotti. Transcrevi o relato de Alfredo, ex Coxa. Agora, missionário da luz divina e do perpétuo dízimo.

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