quinta-feira, 19 de junho de 2014

Parabéns, Chico.

 O senhor não sabe, mas eu recebi uma grande influência da sua obra. Quando criança minha mãe fazia um revezamento entre seus discos, os tapes de Sir Elton John e uma sintonização bacana na Antena 1. Fazia questão de falar sobre suas músicas com eu-lírico feminino, que "só um grande artista conseguiria, sendo homem, escrever tão bem sobre a alma feminina". Ou seja, colocando-se no seu lugar. Como professora de Língua Portuguesa, e apaixonada por literatura, ela fazia sempre uma relação direta entre essas suas características composições, com as cantigas de amigo presentes no trovadorismo português. Sim, assim como suas letras mais irônicas e sociais, são de fácil relação com as cantigas de escárnio

 O senhor, ora, é um trovador! Um trovador moderno. E é brasileiro! É meio paulista, meio carioca. Não que ser brasileiro seja de qualidade qualquer, por favor, sem patriotismo. Mas lá no fundo, é um orgulho saber que nascemos na mesma terra tupiniquim. O senhor talvez seja uma especie de patrimônio nacional. Como o turbante das baianas, nossas danças, as festas, a libertinagem que está em quem nasceu pra sambar, mesmo não sabendo. 

 Eu escrevi poemas, contos, crônicas, até textos pra faculdade (porcos, é verdade) lembrando de suas músicas, das suas obras dramaturgas, de toda a sua criação. Lembrava de suas entrevistas, os documentários, as declarações de outros artistas. Todo o mito que criaram sobre a sua imagem, e desconstruí isso. Parei de olhá-lo como a maioria fazia, como um "semi deus". Toda sua criação brotou de novo a meus olhos, mas agora produzidas por uma pessoa comum. Um artista como outro qualquer. Isso foi... Inútil. 

 Tudo o que você fez continua sendo de um talento e uma qualidade extraordinária. 

 É verdade, não há como não olhar pra toda sua obra e ficar, simplesmente, indiferente a isso. Só um ignorante se cegaria pra tudo isso. E é um absurdo a quantidade de ignorantes que caminham sobre a terra. Muitos me odiarão, e pisarão em minha opiniões - a internet, senhor, é uma biscate. Mas é um absurdo cultural não gostar de sua obra. Eu entendo não gostar do senhor cantando. Agora, sua qualidade como compositor, romancista, dramaturgo, contista, etc., é inegável. 

 Eu odiava bossa nova, Tom Jobim e todo esse mimimi coxinha que parecia estar em torno do gênero. Mas foi observando a sua influência e a de Vinicius de Morais que entendi um pouco da verdadeira finalidade dessas músicas. Serem bonitas. Belas, harmônicas e conceitualmente simétricas. Você fez parte disso também. E foi incrível ver esse pessoal levando a imagem do "brasileiro talentoso" pro resto do mundo. E não só do famigerado "malandro". 

 Eu tive professores no colégio que me colocaram mais próximo de sua obra. Um mestre em história que me fez entender a sociedade espartana ouvindo "Mulheres de Atenas". Outra mestre de literatura, que comparou uma música sua com de outros artistas tão diversos, que fez a sala mergulhar na primeira dose de embriaguez literária daqueles jovens. Lígia Araújo, uma professora incrível, e uma escritora maravilhosa. Foi nesse contexto que um grupo de amigos se tornou inseparável. Discutindo suas composições, sua época áurea, tudo. É um lindo grupo... É uma amizade maravilhosa que canta "Luíza". 

 Minha mãe continua te adorando! Ela é uma grande fã. Gostaria que o senhor a conhecesse um dia. Ela ia amar. Eu continuo o admirando. E que o senhor ainda seja tão ativo quanto foi seu pai, e viva tanto quanto sua mãe.

 Feliz aniversário!

Por Caio Terciotti - Pseudo-artistas que me perdoem, mas talento é fundamental.
 "Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, (...)"

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