quarta-feira, 26 de março de 2014

Um Garoto.

   Edward acordou e viu que não daria pra ensaiar com a galera logo pela manhã. Pela janela do quarto reparou que chovia tempestuosamente. O gramado estava encharcado e a lama já invadia o pequeno caminho de pedras que seu pai havia feito com tanto cuidado. Espichou-se pra tirar aquela preguiça de quem não dormiu o suficiente, colocou qualquer roupa, só pra não sair de samba canção, e foi até a cozinha ver o que havia para o café.

   Ele adorava sua mãe, ela sabia exatamente o que ele gostava de comer, e exatamente o que gostava quando estava frustrado. A senhora Rita Smelters sabia que se o filho não fosse ensaiar exatamente no horário que havia combinado com os amigos, ficava cabisbaixo e meio irritadiço. Por isso, fazia uma porção generosa de torradas com presunto e queijo e, um pouco de molho de tomate.

   - Não fique assim, vocês podem ensaiar mais tarde – dizia sua mãe, enquanto ele tentava comer um pedaço da torrada. Pensou em falar que não ia dar, porque o baterista, ia viajar dali três horas e não havia quem o substituir. Mas como D. Rita tentava animá-lo, ele achou que seria um gesto grosseiro contradizê-la. "Eu sei, mãe. Obrigado!".

- Ah, antes que eu me esqueça, chegou uma carta pra você. E a senhora Smelters estendeu a correspondência ao rapaz enquanto tentava convencê-lo a cortar pelo menos dois dedos do longo cabelo.

- Para, mãe. Eu já disse que não quero. Meu cabelo está legal assim e não tem nada que possa me fazer querer... - Ele parou de falar imediatamente quando olhou para a insignia no envelope e a forma oficial que tinha o documento. Não esperava que aquilo poderia realmente acontecer com ele. "Não. Não é possível! Eu não quero. Nunca quis. Deus!", a Sra. Smelters enrijeceu assim que entendeu o que estava acontecendo. Seu filho fora convocado pra Guerra. 

Edward não sabia o que dizer. Sua primeira reação foi procurar o lugar mais alto e mais próximo possível e se jogar. Mas sabia que seria estupidez, possivelmente, muito menos estúpido do que aquela guerra sem fundamento, mas não daria sentido ao que estava sentido. Não era só desespero que o preenchia, era raiva. Raiva de não entender porque homens que ele nunca vira, estavam decidindo o seu próprio futuro. Acabando com anos da sua vida, indo pra um país distante e hostil. Podia, e seria (não acreditava na sua sorte) morto. 

Seus pais ficaram arrasados, a Sra Smelters bem mais que seu marido. O Sr Smelters acreditava que essa era a oportunidade de seu filho finalmente virar "homem". Que participar de uma guerra, defendendo as cores de seu país, era uma chance única e que devia ser aproveitada. 

- Você têm que parar de se preocupar com esse garoto, Rita. Ele vai ficar bem, só alguns meses e ele volta pra casa.

- Por Deus, John! É uma guerra - dizia a sra Smelters entre lágrimas e soluços - ele pode não voltar! Você já ouviu o que as pessoas dizem daquele lugar?

- Bobagem. Conversa de hippies que foram obrigados a se alistarem. Histórias de terror pra assustar mentes fracas - o Sr Smelters não suportava a "liberdade" que os adolescentes tinham, e muito menos as músicas que ouviam.

- Amanhã, continuou ele, Edward entrará naquele avião, e será outra pessoa.

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No seu quarto Edward sentia-se completamente desolado. Quando pensou que a poucas horas sua maior frustração era não poder ensaiar, se achou tolo. Aliás, agora tudo parecia não ter nenhuma importância. A foto de Mick Jagger colada no estojo da guitarra o deixava profundamente deprimido. E seu poster dos garotos de Liverpol o faziam sentir raiva. Olhava os rosto radiante dos quatro membros da banda britânica e não acreditava na sua péssima sorte. Dali alguns dias estaria indo pro Vietnã, pra matar vietcongues, que ele mal sabia se mereciam ser mortos. Se é que alguém merece algo assim...

Criticava tudo isso em suas músicas. A política imperialista, a morte de jovens combatentes, o preconceito... Era artista amador e militante. Mas parecia que não queria mais fazer isso, queria poder deitar na cama, e não levantar mais. Queria poder ter a oportunidade de falar com algumas pessoas antes de ir. Mas seus amigos agora estavam viajando, assim como as meninas que costumava sair. 

Edward sempre teve muito jeito para lidar com as pessoas, assim como com as meninas. Muitas o adoravam e faziam dele um espécime bem concorrido entre a turma de amigos. E apesar de não ser bonito, necessariamente, tinha um estilo próprio de rebeldia e bom comportamento que, apesar de paradoxais, combinavam.

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Não era um sonho natural, tudo era muito claro e objetivo. A ferida ainda estava aberta logo abaixo do diafragma. Sentia a chuva torrencial encharcar sua farda. Lembrava de tudo com certos períodos de amnésia. Entre um flash e outro, lembrava-se de sua mãe. Cada batimento do coração diminuindo gradativamente... A respiração... "Ahhh... Ahhh.. Ahh...". Seu último pensamento não foi o último beijo, a última transa, o último solo de guitarra, as raras palavras doces de seu pai. Eram as torradas de sua mãe. O cheiro do café da manhã... Mas não, não foram esses os últimos pensamentos; lembrava-se claramente de muito corpos. Feridas de balas, facas, facões... Armadilhas no meio da selva preparadas para acabar com o inimigo distraído. Mais que isso, com o inimigo arrogante. Que não se preocupou em entender seu adversário, que subestimou a força de um oponente que só em teoria era inferior. Corpos dilacerados, membros separados de seus corpos originais. "Nããããão!!!" Era um show de horrores. Ouviu uma última vez os acordes do violão, e um som agudo de microfonia. Tinha uma guitarra destruída nas mãos, sua primeira guitarra que fora destruída numa briga adolescente. Chorava sobre a guitarra. Uma metralhadora, pesada e fria, era o que tinha em mãos. Ela não tocava nada belo, era uma nota constante e ensurdecedora. Ra Ta Ta Ta! Seguidamente... Aquele barulho infernal... Continuo... Essa nota continuou. Edward não teve paz pra morrer.


Por Caio Terciotti - Provando que, apesar de implicar com a banda, sou um grande fã.

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