segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

"Ei! Gata, gostosa, delícia, princesa, ui ui, charmosa, tesão, safada, potranca, danada!!"

Ilustração de Guilherme Ambrozio.
Nunca fui fã, aliás, eu nunca entendi as "cantadas" estapafúrdias que homens fazem pras mulheres na rua. Já é muito estranho presenciar um: "Oi, gostosa!", na praia com a galera de férias e descontraída. Pior ainda, na rotina cansativa do emprego, o ser humano sair do trabalho e fazer uma cagada apoteótica dessa. De variados gêneros, essas pérolas saem todos os dias da boca de algum individuo filho de chocadeira: gata, gostosa, delícia, princesa, ui ui, charmosa, tesão, safada, potranca, danada, vamos dar uma volta, vem que eu to facin, etc etc etc. Elas têm diminutivo, aumentativo, derivados, conjugações infinitas e apodrecem a sociedade todos os dias.

Estamos falando de uma cultura machista enraizada, que ainda lutaremos por gerações pra transformar.  Mas, ainda sim, conseguem me surpreender. Relinchar pra uma mulher foi o suprassumo que já chegaram, perto de mim, dessa canalhice. O som gutural do cavalo, seguido do "vai potranca", me fez pensar com quantas mulheres esse senhor já se envolveu, e quais delas foram conquistadas por isso aí. Na cabeça dele, a mulher deve pensar: "Beleza, agora que ele relinchou, eu vou pra cama com ele". 

Será que algum dia Marlon Brando foi tão canalha a ponto de imitar um cavalo? Consegue imaginar James Dean fazendo "nhoc nhoc" e dizendo: "Oi, porquinha, hoje eu saí do chiqueiro pra pastar"?!?! Em "Perfume de Mulher", alguém lembra de ter visto Al Pacino dizer: "Há... Há há... Ei... To cego... Mas vou te olhar com as mãos!".... Enfim, onde esses caras aprenderam que ser nojento funciona? Quais foram seus exemplos? O pai, o avô, tios... A família tradicional, onde o homem é visto como o único ser provedor de sustento. Portanto, "trabalha" mais que os outros membros, e por isso precisa aliviar a tensão de vez em quando. Como? Ora, fazendo piadas de diversos gêneros e preconceitos. Mexendo com mulheres na rua. Indo pra zona, porque é difícil conquistar a própria esposa depois de anos sendo um porco... E assim por diante.

"Mas isso é horrível!"
De fato. Mas quem nunca? 

Eu costumo falar de pecados e erros sociais que não costumo cometer, ou nunca fiz. Não por hipocrisia, mas porque ainda não me sinto pronto pra falar dos meus próprios demônios cotidianos. Nunca mexi com mulheres na rua, mas quando era mais novo, no fim da adolescência fui obrigado por minha consciência, a me aproximar de uma ou duas moças e simplesmente dizer: "Você é linda." Tudo bem, erro meu. Não deveria invadir a privacidade de alguém. Mas, e se aquele elogio foi uma das poucas coisas boas que ela escutou no seu dia, ou na semana? Não lembro da reação de todas, mas uma foi bem explicita. Cerrou os cenhos, virou as costas e foi embora em passos fortes com as madeixas ao vento.

Talvez, eu também tenha sido um porco. Talvez, eu tenho sido tão machista e babaca quanto o senhor que relinchou e chamou a moça de potranca. No fundo, todos os homens da minha geração ainda são machistas e preconceituosos, mesmo nas mínimas ações.

Você é mulher é já ficou constrangida por atitudes como as citadas no texto? Aproveite e de seu depoimento ou recado aos homens que costumam fazer isso. Comente!

Por Caio Terciotti - Devaneios de um daltônico -
 Canalha sem querer. E as mentiras que os homens contam?

4 comentários:

  1. é péssimo escutar essa tipo de coisa, mas relinchar já é demais...acho que não me seguraria...

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    1. Deve ser realmente horrível. E quando ouvi o relincho foi surreal. Uma situação humilhante e degradante para todos que presenciaram.

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  2. É realmente lamentável presenciar tal situação. O indivíduo que a comete certamente não tem consciência do que está fazendo mas, este é o mundo em que vivemos. Não devemos nos afetar com essas pessoas, pois, esta terra é grande e sempre haverá quem valha a pena.

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    1. É realmente importante manter uma atitude forte e positiva, mesmo que consciente dos problemas que nos cercam.

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